Decisão no Maracanã pelo olhar de um feroz policial
“Estava para começar o segundo tempo. Cheirei o ânus do
Tubarão, no maior respeito, e tomei posição. Considero Tubarão um
mestre, o pastor alemão mais condecorado do nosso regimento. Mas não era
hora de papo.
Procurei me concentrar, postado de frente para a multidão,
de costas para o Gol do Barbosa, como o Aníbal costuma chamar aquelas
balizas. Pelos puxões exagerados na minha coleira, percebi que o
nervosismo do velho e bom Aníbal aumentara. O meu, não. Somos
alimentados e tratados para não permitir que emoções cheguem à flor dos
pelos. De controle emocional eu entendo.
Concordo com Aníbal, que apesar de ser um humano típico, acha futebol
uma besteira sem tamanho. Coisa de filhotes rolando na grama
perseguindo uma bola por mais de cinco minutos. Tubarão me explicou,
cheio de pachorra, que, por não sermos capazes de enxergar algumas
cores, perdemos boa parte da graça do que se passa nas arquibancadas.
Não identificamos uma suposta cor chamada vermelho, por exemplo. Pode
ser, mas ainda assim acho tolice. E ainda por cima perigoso.
Desde cedo aprendemos nossa missão: evitar a invasão do
campo. Somos a arma certa contra baderna. Pistolas travam. Homens
titubeiam, afrouxam. Conosco não há negociação possível, apenas recuar.
Começo a farejar os torcedores que se apinham à
minha frente. São 80 mil humanos aflitos, vidrados na bola. Gosto de
detectar elementos mal intencionados. O odor de álcool é intenso, maior
que o normal. Trata-se de uma partida
‘final de Libertadores’, escutei Aníbal comentar mais cedo ao darmos
uma corrida num cambista. O cambista foi logo libertado, certamente para
fazer jus ao nome do evento.
No banheiro do setor norte, lá em cima, há um
rapaz com maconha no bolso da calça. E ele comeu churros hoje. Aqui
perto, o radialista gordinho cheira a cloro, isso é fígado. Testo meu
olfato a quilômetros de distância. Continuo uma máquina. Sinto o
cheirinho apetitoso dos preás, vários preás gordos, correndo pela Quinta
da Boa Vista. E o mau hálito do elefante do Jardim Zoológico. A
cavalaria segue posicionada fora do estádio. Perfume bom de estrume. E o rio Maracanã segue fedendo. Oito anos na ativa, e meu faro continua o fino.
Epa. Farejo um magrelo que porta explosivos com mais de
dois gramas de pólvora. Penso em alertar Aníbal, mas… Sou interrompido
por um episódio prosaico que me distrai. A mocinha bonita com o
microfone perto do gol disfarçou e soltou um traque, com perdão do meu
latim.
De todas as fraquezas e trejeitos humanos, esta para mim é a
mais insondável. O homem é o animal que prende gases. Que se envergonha
dos odores. A natureza ensina que todo organismo precisa eliminar as
substâncias que lhe faz mal. E o homem? Enrubesce, peida pelos cantos,
quando o faz. Obstruir é sofrer. Tubarão me explicou que existe uma
etiqueta, que todo humano segue ao nascer. Sei o que é etiqueta, já vi
uma nos fundilhos da calça do Aníbal. Será que está tudo escrito naquele
quadradinho? ‘Não peidarás em público?’. Mas não julguemos. Nós cães
não queremos ter razão, queremos o calor humano por perto.
Esqueço do jogo, que pela hora está para acabar. Ouço os ruídos pavorosos dos intestinos dos torcedores. Pelo jeito o placar
não serve. Prevejo problemas. Humanos, quando o time perde, viram
feras. Grunhem, trocam tabefes, chutam o outro no chão, não respeitam
pai e mãe.
Venta um odor familiar atrás de mim, dentro do campo.
Reconheço na hora. A morrinha rançosa do esportista cagado. O cheiro do
medo. É uma fragrância ocre, deliciosamente azeda, que emana de muito
jogador de futebol quando a partida se aproxima do fim. O treinador
tampouco cheira bem.
Reparo então que Aníbal passou a prestar atenção no jogo.
Permito-me então, pela primeira vez, reparar no que se passa no gramado.
As pernas de uns cheiram a gelol. Pancadaria. Os outros onze,
forasteiros, exalam um aroma de tomate, milho e condimentos que não
identifico. Apuro a audição. Em língua estrangeira, eles soltam os
cachorros no árbitro.
Vem agora um moleque magrinho na nossa direção, com a bola
grudada no pé. Não detecto nenhum vestígio de cagaço nele. Leva uma das
pernas lá atrás para chutar a gol, de fora da área. Ouço o trilo forte
soprado pelo juiz. Levou um belo pontapé. O time se agrupa, e um
veterano pede a palavra
– Deixa comigo, vou meter essa dentro do gol desses filhos de uma cadela!
Põe as mãos na cintura, o desbocado. Exala
confiança. O estádio se agita num zunzunzum pavoroso, as hediondas
melodias dissonantes, como Tubarão costuma brincar. O camisa
10 olha para a bola. O silêncio. O pé se desloca. Apalermado, observo a
bola. Nunca vi um objeto qualquer na minha vida canina fazer uma
trajetória tão bonita. Ela decola da grama espirrando gotículas de água,
sobe com uma curva impossível, e puf, cai, cai. Ao despencar dá a
nítida impressão de que vai passar pelo lado da trave direita e me
atingir, até que completa a curva e estufa a rede. O barulho da borracha
roçando macio no náilon me arrepia o dorso. O silêncio de um segundo
vira uma fulminante euforia. Que me amedronta pela primeira vez na vida
–porque me contagia.
Correria louca do time, e o camarada que chutou a bola
bonito parece o mais feliz do mundo. Ele vem com cara de louco na minha
direção, quer abraçar o estádio todo. Estou entre o herói e seus
súditos. Minha missão é separá-los. Mas e agora?
Tubarão rosna acolá do gramado, precisa de
reforços do lado dele. Faço então uma manobra rápida, recuando para trás
do Aníbal, que se confunde e tenta trocar a coleira de mão. Aproveito a
chance, e movido sabe-se por que instintos, peço perdão ao Tubarão, ao
regimento, ao lobo antepassado, e começo a correr ao lado dos jogadores.
Preciso correr. Alguns repórteres e dirigentes se apavoram, fogem. O
povão ri, me atiram uma bandeira que cato com a boca, e sigo a pular e
ganir, feliz como um bicho qualquer, como um humano.
Sinto um puxão na coleira e falta de ar. Vejo o rosto
apavorado do Aníbal, sem controle emocional nenhum. Típico. Vem
esbaforido, rosna qualquer coisa sobre me castigar, que ele pode ser
punido pelo comandante, chatices do tipo. Ser humano é sempre assim,
‘eu, eu, eu’, em vez de ‘au, au, au’. Me encolho por fim no gramado,
murchinho, com vontade de morder Aníbal e descer a ladeira do Maracanã e
perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.”

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