Acorda, Zé!

(Reprodução O Globo)



O empate em 1x1 contra o Cruzeiro, no Mineirão, pela 14 rodada do Campeonato Brasileiro intensificou parte das reclamações feitas a Zé Ricardo. A pressão pela eliminação na Libertadores foi abrandada pela sequência de seis vitórias alcançada pelo time – Chapecoense, Bahia, São Paulo e Vasco, pelo Brasileirão, Santos, pela Copa do Brasil, e Palestino, pela Copa Sulamericana. No entanto, com a derrota para o Grêmio, em casa, e o empate contra o Cruzeiro, a discussão sobre a qualidade do trabalho de Zé Ricardo voltou à tona.

Zé começou sua carreira no futebol profissional em 2016, ao herdar o desorganizado Flamengo de Muricy Ramalho. Com pontuais mudanças – como a promoção de Márcio Araújo e a consolidação de Gabriel entre os titulares –, além da chegada de novas contratações, como Réver e Diego, o jovem técnico fez com que a equipe crescesse e assegurasse, ao final do ano, a terceira colocação no Campeonato Brasileiro.

O Flamengo de 2016 dirigido por Zé Ricardo encantou por muitos momentos. O time foi fixado num 4-3-3, normalmente escalado com Márcio Araújo, Willian Arão e Diego ocupando o meio de campo, com Gabriel/Fernandinho, Éverton e Guerrero à frente. A utilização de homens rápidos pelos lados, capazes de atacar e recompor rapidamente, dava a consistência defensiva necessária para um time encontrado aos pedaços pelo novo treinador, que dispunha de pouco tempo para os treinamentos. Ao mesmo tempo, o time conseguia ter a velocidade para ser efetivo nos contra-ataques, muito utilizados ao longo do ano. As triangulações pelas laterais do campo, principalmente pelo lado direito, também foram uma das marcas do melhor momento do Flamengo de Zé Ricardo.

O time era elogiado por ser seguro defensivamente, compacto e pela intensidade que aplicava às partidas. O elenco não era perfeito, tinha várias lacunas e boa parte das deficiências do time em campo eram colocadas na conta da ausência de jogadores de qualidade. A falta de pontas capazes de não só desempenhar o papel tático mas também de serem decisivos, ferirem o adversário e decidirem os jogos era um dos pontos mais lamentados pelos rubro-negros. Mesmo assim, partidas memoráveis, como a virada sobre o Cruzeiro nos últimos minutos de jogo, o primeiro tempo devastador sobre o Atlético MG, no Mineirão, e a excelente partida contra o líder e futuro campeão Palmeiras, fora de casa e com um a menos, mostravam a força que o time já possuía, apesar de todas as falhas e pontos fracos. O crescimento da equipe com a chegada de Diego animou e mostrou que era possível unir qualidade com disposição tática. O ano terminou sem títulos importantes mas deixou um sentimento de que, com as peças corretas, era questão de tempo até que o time atingisse seus objetivos.

A nova temporada chegou e as peças de qualidade também chegaram. Berrío, Rômulo, Trauco e, mais recentemente, Rhodolfo, Geuvânio, Éverton Ribeiro e Diego Alves. É impossível olhar para o elenco rubro-negro atual e duvidar da capacidade do time. Esse é daqueles que, como se diz no meio futebolístico, faz o adversário “tremer só de olhar a escalação”. No entanto, isso não impediu o clube de colecionar atuações péssimas, derrotas vexatórias e eliminações dolorosas. O ano mágico chegou e, com ele, vemos um Flamengo que parece regredir a cada dia.

O ano não começou mal para o time da Gávea. Campeão Carioca invicto, somando goleadas contra os pequenos e consistentes partidas contra os grandes. Na Libertadores, o time venceu todas as partidas em casa, apresentando bom futebol e, nas derrotas, fora de casa, foi melhor em dois dos três confrontos – Universidád Católica e Atlético Paranaense. Mas, não bastou. Apesar de melhor que os adversários, o time não decidiu as partidas, levou para casa duas derrotas evitáveis e jogou de forma inacreditavelmente preguiçosa diante de um empolgado San Lorenzo, na Argentina, na partida decisiva da fase de grupos. Eliminada pelos hermanos e já fora do principal objetivo do clube na temporada, a equipe pareceu se perder completamente.

A tão elogiada intensidade do time de Zé Ricardo foi deixada em algum momento na transição entre as temporadas. Os jogadores abriram mão de buscar as triangulações pelo lado e os laterais se tornaram muito mais burocráticos do que antes. Não é nada incomum ver Pará dominar a bola, olhar pra frente e em seguida retornar o jogo para um dos zagueiros. Willian Arão, um dos principais jogadores do ano passado, entrou em uma inexplicável queda de rendimento e deixou de figurar entre os titulares. A efetividade do lado direito do ataque, as infiltrações de Willian Arão e a excelente fase de Muralha são pontos que, inexplicavelmente, viraram passado.

Por sua vez, os cruzamentos, que deveriam ser um recurso pontual em meio a diversas formas de tentar furar a defesa adversária, se tornaram a única arma do time. Contra o Cruzeiro, o Flamengo teve 60% de posse de bola e realizou 27 cruzamentos, acertando apenas 3. E esse cenário tem sido recorrente nas partidas do Mais Querido. Com jogadores mais técnicos e criativos que os disponíveis na temporada anterior, é inaceitável que o time tenha se tornado tão previsível. Zé Ricardo parece não enxergar essa situação ou acreditar que, magicamente, todos os times do Brasil abrirão suas defesas para os contra- ataques e cruzamentos rubro-negros.

Por trás dos problemas psicológicos e das quedas de rendimento, está um relutante comandante. Amplamente elogiado pela ousadia, pelas modernas ideias de futebol e por, possivelmente, ser o futuro do comando técnico rubro-negro, Zé nos mostra que, talvez, estivéssemos redondamente enganados a seu respeito. Incapaz de realizar variações táticas na equipe, tornando-a mais desorganizada a cada partida e insistindo em jogadores que nada acrescentam ao time, o treinador vai esgotando a paciência da torcida e aumentando a pressão sobre si.

A lesão de Rômulo no início da temporada fez com que Márcio Araújo retornasse ao time titular, deixando escolhas mais técnicas, como Cuéllar e Ronaldo, no banco de reservas. Voluntarioso e bem nos primeiros jogos, o camisa 8 logo voltou a ser o jogador odiado por boa parte da torcida. Diversas vezes mal posicionado, péssimo com a bola nos pés e inexistente para o time no momento ofensivo, Márcio Araújo passou a sobrecarregar Willian Arão e Diego, além de diminuir a qualidade da saída de bola. Excepcional ladrão de bolas, segundo Zé Ricardo, Márcio sequer possuía o melhor índice de roubadas de posse – atrás de Renê e, posteriormente, Cuéllar. A presença do camisa 8, apesar das inúmeras falhas, dava-se pela insistência do treinador e não por suas qualidades, compartilhadas por jogadores mais técnicos e úteis para o time.

Alex Muralha e Rafael Vaz viveram situação parecida. O primeiro, irregular desde o início da temporada, precisou falhar seguidamente e ser o responsável direto por uma derrota – Sport, na Ilha do Retiro – para, finalmente, ter seu lugar no time titular ocupado por Thiago. Já Vaz, muito pouco consistente durante toda a temporada de 2016, ganhou uma incompreensível sobrevida, mesmo com as boas partidas de Donatti e a constante presença de Juan e Léo Duarte no elenco. Caso semelhante também ao de Willian Arão, que somou incontáveis partidas em baixo nível até ser trocado por Cuéllar.

Os cenários de Márcio Araújo, Muralha, Vaz e Arão são bons exemplos do quão nociva a insistência de Zé Ricardo pode ser. A permanência de jogadores em má fase entre os titulares num elenco farto como o rubro-negro custou pontos ao clube nas competições e, talvez, tenha sido parte importante da conjuntura que causou a eliminação precoce na Libertadores. Não há necessidade de se livrar de qualquer jogador só por conta de uma queda em sua performance. Willian Arão foi um dos pilares do time em 2016, Márcio Araújo e Vaz mostraram-se úteis em várias situações e Muralha foi um dos melhores goleiros do país em 2015 e 2016. Todavia, é inadmissível que esses jogadores sejam titulares pelo que fizeram ou podem fazer e não pelo que fazem agora. O caso torna-se ainda mais gritante quando há entre os reservas jogadores capazes de elevar ainda mais o patamar técnico da equipe. A competitividade dentro do elenco deve ser estimulada para que todos os jogadores estejam em sua melhor forma ao serem solicitados. O apego de Zé Ricardo tem gerado um mal-estar entre os jogadores e a torcida – e, talvez, dentro do próprio elenco.

Em todo o mundo e no Brasil, principalmente, torcemos sempre para o sucesso de treinadores jovens, com mentes abertas e mais antenadas ao que há de mais moderno no futebol. Entretanto, essa condição não deve ser usada como escudo para rebater qualquer questionamento feito aos trabalhos realizados. A tão pedida paciência com os treinadores é justificada ao avaliarmos trabalhos que apresentam evolução e que, eventualmente, atingirão os resultados desejados. Essa evolução tem passado longe da Gávea na atual temporada e, por isso, o trabalho de Zé Ricardo deve ser interpelado tanto pela torcida quanto pela diretoria. Quando questionado a respeito da situação atual do time, o presidente Bandeira, Zé Ricardo, Rodrigo Caetano e todo o Departamento de Futebol sempre se mostram satisfeitos com o trabalho. É complicado imaginar o motivo para tanta satisfação em meio a mais uma eliminação traumática e a um time que está a 12 pontos do líder mesmo tendo um investimento muito maior.

Zé Ricardo não é um péssimo técnico, longe disso. Ano passado mostrou capacidade ao pegar um time inexistente, dar padrão tático e fazê-lo disputar o título contra o forte Palmeiras de Cuca. No entanto, o Zé de 2017 parece esgotado. Existe a possibilidade de que esse tenha sido o máximo que possa dar ao clube. Pode ser que tenha sido apenas um treinador de transição e agora precise de alguém maior para sucedê-lo – como Louis Van Gaal e Jupp Heynckes, no Bayern de Munique. Mas a hipótese contrária também é possível e, para isso, as boas ideias do ano passado precisam voltar a ser aplicadas nessa temporada. Chegou a hora de Zé acordar e mudar, caso contrário será difícil que o jovem treinador tenha sucesso. E o sucesso do clube, seja com Zé Ricardo, Jorge Sampaoli, Tite ou qualquer outro, deve sempre ser buscado. O Flamengo está acima de todos os Zés, Márcios, Bandeiras e sempre estará.

O que tem achado do comando de Zé Ricardo? Deixe sua opinião nos comentários!

Saudações Rubro-Negras!

Pedro Santos - @_PedroHRS









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