Tudo está escrito


Tenho certeza de que já falei anteriormente sobre a pretensa fidelidade aos fatos que acomete os cronistas de pós-jogo que assistem os jogos que terão que resenhar. Encerrados nos estádios, ou à imagem deles gerada, estes escribas, ainda que não o queiram, são constrangidos a relatar apenas o que seus sentidos são capazes de captar. Esta limitação incontornável compromete a abrangência do relato, já que é baseado apenas em fragmentos da realidade. Sim, fragmentos, por maior que seja o poder de concentração do observador, é humanamente impossível ver, ouvir, sentir e contextualizar em tempo real tudo o que acontece durante 90 minutos de um jogo de futebol. Isto para não mencionar o que acontece no antes e o no depois, que possuem peso igual ou até maior do que os chamados fatos que se desenrolam durante o tempo marcado pelo cronômetro.
O que vem a resultar em monótonas e invariáveis análises de resultado, muito raramente livres dos grilhões da fórmula Ganhou=Foi Bem x Perdeu=Foi Mal. Tô falando porque comigo acontece exatamente a mesma coisa. É bem verdade que quem se propõe a relatar, resenhar ou comentar um jogo de futebol geralmente o faz sob a mira do fuzil do aqui e agora e, seja nas redações dos media outlets ou no humilde PC onde você maltraça seu blog, o deadline não tem esse nome a toa. O tempo avoa e a caravana não para, tratamos aqueles fragmentos de realidade como se fatos fossem, ilustramos com as imagens das nossas roupas e armas e servimos o repasto em doses generosas para quem estiver disposto a consumi-los. Tudo rapidinho, tudo levinho, tudo picadinho.
Mas o futebol só é o futebol porque compreende muito mais que só o futebol. E quando tentamos passar tudo que o futebol é pelo filtro estreitíssimo do que está escrito no placar ao fim dos 90 minutos deixamos de fora o que o futebol tem de melhor. E essa visão reducionista do futebol tem uma forte tendência a ficar chata de ler. Pra não ficar chato não podemos esquecer que o futebol não é só um jogo de bola, é um jogo de mistérios em que a bola é látego e espórtula. Assim como não podemos esquecer de que tudo já está escrito.
Partindo das verdades absolutas facilmente comprováveis que elenquei nos parágrafos acima é até bacana da minha parte poupa-lo do relato daquilo do que vi, ouvi e senti assistindo ao Flamengo, força incontrolável da natureza, ao enfrentar o pequeno alvinegro no eólico campinho da Portuguesa. Não foi uma apresentação memorável, longe disso, mas ao contrário do que a progressão do placar possa mostrar, o Flamengo não jogou 2 pontos fora. Ganhou 1 e foi ponto importante.
Toda a configuração do extra-campo, que é onde residem os mistérios que realmente decidem os jogos, indicava que o Flamengo não encontraria facilidades. Em nítida curva ascendente, com muita bala na agulha, comprando jogadores caros que deixam em polvorosa a crônica paulista e ainda por cima varejando ousadamente o mercado internacional, o Flamengo tinha tudo pra tomar um tombo. A arco-íris em peso rezava por isso. E os deuses do futebol adoram esse roteiro em que o Flamengo faz o papel de galã-palhaço, o que a surpreendente e refinada atuação do sempre botinudo Aírton, e os primeiros gols na vida logo de dois wannabes alvinegros, confirmam categoricamente.
Empates com gols com o Foguinho já viraram tradição nos últimos 10 anos. E eles são ainda mais frequentes quando o Flamengo não joga lá muito bem. Pelo jeito que o Flamengo jogou o 1º tempo já dava pra perceber que o bagulho ia ser complicado. O Foguinho estava melhor postado, anulava nossa jogada pela direita e dominou o meio de campo com relativa facilidade. A vantagem que construímos com os gols de Everton, Jorge e Guerreiro era artificial. E a bola, látego excruciante nas costas dos covardes, nos puniu com extrema severidade. Mas ficamos no lucro, era jogo pra perder.
As substituições de Zé Ricardo, daquelas pra “garantir o emprego” foram desastrosas. Plantar 4 cabeças de área, independente do placar, é pedir pra se fuder. No Flamengo nunca deu certo. A maionese desandou rapidamente e cheguei a temer um outro apagão anímico, como aquele do Itaquerão. Felizmente o tempo não foi suficiente para que o Foguinho aprontasse uma das suas proverbiais presepadas. Se preferir você pode substituir o nome do Foguinho pelo do Flamengo na frase anterior.
O Campeonato é longo e ainda estamos longe dos seus momentos críticos, o que serve de desculpa para o déficit de disposição e sangue no olho que podemos verificar em nossa formidável rapaziada. Sugiro à direção de futebol do Flamengo que leve até o Ninho alguns companheiros de Everton no time Hexacampeão de 2009 para que conversem com os caras e expliquem que o Flamengo só vai ser Hepta se os jogadores quiserem esse título com ainda mais vontade do que a própria torcida. Não é tarefa das mais fáceis, mas já foi provado que é possível. De toda sorte o Hepta já está escrito. Mas é fundamental que todo o elenco saiba ler.
E a você, que se preocupa com a nossa episódica queda de algumas posições na tabela, um humilde refrigério.  O Flamengo no G4 é como o doidão na boca de fumo. Entra, fica 5 minutos pra fazer rolo e sai voado, viajando.
Fonte: Republica Paz & Amor

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