Fla-Flu no Maracanã é um dos maiores cartões-postais do futebol brasileiro. Mas, no próximo domingo, o “Clássico das Multidões” muda de casa. Com o Mário Filho e o Nilton Santos fora de uso por conta dos Jogos Olímpicos, o estádio do Pacaembu, em São Paulo, será o palco da partida válida pela segunda rodada da Taça Guanabara – algo que aconteceu apenas uma única vez, em 1942, quando o duelo terminou sem tirar o zero do placar. Além dos cariocas que moram na capital paulista, é bem provável que torcedores de clubes de São Paulo desejem participar da festa. O Esporte Final convidou, então, um rubro-negro e um tricolor para falar sobre curiosidades da história do confronto, com aquele toque de provocação obrigatório para enaltecer ainda mais os grandes clássicos do país.
O LADO DO FLAMENGO
por Arthur Chrispin *
O Fla-Flu será jogado em São Paulo. Pode parecer estranho – e é mesmo -, mas este é um dos mistérios e devaneios do futebol carioca, onde tudo pode acontecer, inclusive nada. A convite dos brothers do Esporte Final, estamos aqui para apresentar cinco motivos sagazes para você apreciar o Fla-Flu no aprazível estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu [a rima não foi proposital].
1) O Flamengo é a quinta maior torcida de São Paulo
É fato, a Magnética é a maior torcida do Brasil. Na cidade mais cosmopolita do país, que tem gente de todos os lugares, obviamente a massa rubro-negra se faria forte e presente. É possível, com um bom horário e divulgação, que os flamenguistas lotem a sua parte nas arquibancadas fazendo uma linda festa.
2) Fla-Flu é o clássico mais charmoso do Brasil
É uma rivalidade diferente. Ela não é pautada pelo ódio, mas pela mágoa. O charme do confronto se dá pelas provocações quase canalhas. São inimigos íntimos. É como se o Flamengo fosse a letra de “Atrás da Porta” e o Fluminense fosse Elis Regina. O Flamengo saiu das costelas do Fluminense. É algo genético, figadal, Karamazov. Além disso, é um clássico que reúne cinco cores diferentes: o vermelho, o preto, o verde, o grená e o branco. O espetáculo das arquibancadas é lindo.
3) O prazer do espetáculo
Se tem uma coisa que não falta em Fla-Flu é emoção. É gol de barriga, gol no último minuto, cenas lamentáveis, dedo na cara, tensão, arbitragem polêmica e stress até o último minuto. Quem não é flamenguista ou tricolor se diverte muito assistindo à partida. Quem torce para um dos dois pode sair de alma lavada ou de cara amarrada.
4) O nascimento do herói improvável
Não é raro nascer um herói improvável que depois desabroche para o futebol em nível nacional em um clássico como Fla-Flu. Com os times repletos de caras novas e figuras da base, alguém pode se consagrar e assinar seu nome na história do clássico. Pelo lado rubro-negro, pode ser o Cuéllar, o Vizeu, o Rodiney… quem sabe?
5) O SERASA moral
É sempre bom vencer o Fla-Flu para que o nosso rival ex-aristocrata, ex-biomédico, ex-maior vencedor de títulos cariocas seja lembrado sempre do seu devido lugar. Inclusive, opa, chegou algo aqui, endereçado ao Fluminense…
* Arthur Chrispin, 37 anos, é pai do Gabo, flamenguista, gerente de operações logísticas e escritor. Lançou o elogiado romance “Amém” em 2015.
O LADO DO FLUMINENSE
por Fábio Balassiano *
O Fla-Flu é o clássico mais charmoso do Brasil. Talvez seja o que mais crônicas brilhantes tenhamos lido (99% vindo do tricolor Nelson Rodrigues, obviamente). Abaixo cinco motivos pelos quais vale a pena sair de casa pra sair de casa e ver o jogo na próxima semana – sendo torcedor das equipes ou não.
1) Quase nunca a fase dos times importa.
2) Marcar gol cedo pode ser uma tragédiaComo é? Funciona mais ou menos assim. Se um time está mal, o clássico é utilizado como mola para voltar a engrenar na temporada. Foram muitos os casos de momentos de crise de um dos dois lados que tiveram no Fla-Flu o fim do martírio e o começo de um novo momento. Há exceções, como no ano em que o Fluminense foi campeão brasileiro em 2012 (duas vezes 1-0, com dois gols do Fred). Heróis improváveis surgiram nessas situações, situações absurdas aconteceram justamente com um time em crise, e ou outro por cima da carne seca. Do lado tricolor, lembro do Thiago Neves, que fez 3 gols em um domingo pós-carnaval (ainda não era nada e buscava espaço no time), e do Chiquinho, que no Brasileiro de 2014 jogou uma barbaridade e fez o gol da vitória no Brasileiro. Nas duas ocasiões o Fluminense estava mal e precisava vencer.
Esta é uma teoria muito minha, mas vale a pena compartilhar. Em Fla-Flu, torço pro Fluminense marcar um gol ali no começo do segundo tempo ou do meio pro final da etapa final. Gol no início (a favor do meu time) é sinal de que um pandemônio pode acontecer. Quando se sofre um gol rápido, a chance de virada aumenta. Já vi Fla-Flu com o outro time (não se pronuncia o nome completo do outro, ainda mais na semana de jogo) abrindo 2-0 de cara e levando 4-2 (foi em 1994, se não me engano) sem a menor cerimônia. Portanto: se no próximo domingo o time para o qual você, paulistano, estiver torcendo marcar um gol logo de cara, não se anime muito.
3) Na fase mais gloriosa do Flamengo, dois títulos históricos do Fluminense
Na fase mais vencedora da história do Flamengo, a década de 80, o Fluminense ganhou dois estaduais em cima do Flamengo – e com gols absolutamente de almanaque. Ambos com Assis, ambos no final das partidas (partidas que tinham o Maracanã absolutamente lotado). Em 1983, a partir de um lançamento de Delei, Assis só cutucou a bola para as redes . Na verdade aquele não foi o jogo do título (como era um triangular, o Bangu teria que vencer o rubro-negro por dois gols de diferença, mas perdeu de 2-0), mas ninguém liga pra isso. No ano seguinte, o time da Gávea contratou o goleiro Fillol, porque achou que em 1983 foi culpa do Raul o gol sofrido por Assis. No ano seguinte, de Duilio pra Renê, de Renê pra Aldo, de Aldo pra Assis, de Assis pra rede. 1-0, título de novo pro Fluminense e a lembrança do Assis dizendo que gostou muito de ter brincado de estátua com Fillol (o arqueiro ficou parado com a cabeçada do mágico Assis.
4) Na pior fase do meu time, vitória no Estadual
Em 1999 o Fluminense estava na Série C. Só teríamos dois Fla-Flus no Estadual portanto. E mesmo assim o Flu não perdeu do rival. Primeiro foi um 1-1 morno, morno mesmo. Em 23 de maio de 1999, 2-0, se não me engano com o Roni (atacante tricolor) marcando o segundo gol por cobertura do meio campo. No final do jogo, em entrevista, ele disse que estava cansado de perder gol na frente do goleiro e tentou fazer diferente. Na época o Roger (hoje comentarista) colocava Roni e Magno Alves 765 vezes na frente do arqueiro adversário, e o índice de acerto da dupla Roni e Magnata beirava o zero. Mesmo assim ganhar do rival nunca foi um grande problema…
5) Em decisões, o retrospecto é favorável ao Fluminense
Não sei exatamente a estatística (se era 8-3 ou algo assim), mas a torcida do Fluminense sempre levava uma faixa imensa pro Maracanã com os dizeres: “Nos Fla-Flus é um Ai, Jesus”, numa clara alusão ao hino do rival. Aliás, como pode um rival colocar essa frase em seu hino? Mas, bem, voltando, o fato é que aqui no Rio de Janeiro há uma máxima que o rubro-negro sempre perde do Fluminense em decisões. Não será o caso do próximo domingo, mas a estatística que vale (a dos jogos “mortais) está a nosso favor há milhões de anos. Talvez por isso a gente veja no estádio um duelo tão bonito de gritos e cantos entre as duas torcidas (que se respeitam muito). Quarenta minutos antes do nada nascia o Fla-Flu. Com ele a freguesia rubro-negra em finais.
* Jornalista Tijucano de 32 anos, Fábio Balassiano é tricolor de coração, do clube tantas vezes campeão. Fascinado pela sua disciplina, foi a todos os jogos do Fluminense no Rio de Janeiro entre 1995 e 2014 no Maracanã. Tem amor ao tricolor.?
Fonte: Esporte Final

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