É amplamente sabido que a crise brasileira possui pouquíssimos precedentes em nossa história. Novidade, neste caso, é a possibilidade dela se abater sobre o mercado do futebol, que nos últimos anos se descolou totalmente dos níveis sofríveis atingidos pelo PIB brasileiro. Outro fato surpreendente são as dificuldades se abaterem sobre aquele que surgiu como principal “trem pagador” dos últimos dois anos: o Flamengo. O problema é que talvez a diretoria tenha subestimado uma importante questão, atrapalhando na delimitação de estratégias para combatê-la.
Partimos do orçamento elaborado pelo clube para 2016 – disponível no site oficial rubro-negro. Logo em seguida, uma planilha elaborada pelo Blog Teoria dos Jogos contendo todas as receitas do clube desde 2009, com base na mesma fonte:
PS: as receitas 2016 foram orçadas, assim como as relativas a 2015 surgem como projeções, uma vez que as demonstrações financeiras só serão publicadas ao final de abril.
Fica claro que o clube aparentava convicção quanto ao rompimento da tão aguardada barreira dos R$ 400 milhões em receitas. Houve, sim, precauções: quedas pontuais esperadas nos patrocínios, sócio-torcedor, incentivos fiscais e clube social. Mas nada que contrabalanceasse o salto positivo de R$ 70 milhões originário do novo televisionamento. Aguardava-se, portanto, tranquilidade.
O problema é que ninguém passa incólume quando o PIB despenca mais de 4% em dois anos consecutivos – conforme projeções para 2015 e 2016. Assim, o ano na Gávea começou com a perda não reposta de dois patrocinadores importantíssimos: Jeep e Guaravita. Aliada à crise, o desalento dos torcedores impactou no projeto Nação Rubro-Negra de maneira mais intensa do que o desejável.
Entretanto, o elemento que mais tende a depreciar as finanças do Flamengo não tem relação com a bancarrota da economia, e sim com os Jogos Olímpicos. Por isto, pode-se dizer que a diretoria pecou ao subestimar a falta do Maracanã para esta temporada, bem como seu terrível efeito sobre as bilheterias do clube. Vejamos se não.
Num ano que se iniciou com receitas miseráveis em Macaé e Volta Redonda – além de uma ou outra venda de mando de campo na Primeira Liga – a peça orçamentária rubro-negra previu nada menos que a maior receita de bilheteria da história do clube. Isto mesmo: um ano depois de o Flamengo terminar o Brasileirão com 30 mil torcedores de média. Dois anos depois do título carioca. Três anos após a conquista da Copa do Brasil, numa final cuja arrecadação foi a segunda maior da história do futebol brasileiro. Depois de todos estes anos com Maracanã, o recorde viria em 2016?
Uma projeção mais conservadora nos traria os seguintes números:
Algo em torno de R$ 370 milhões manteriam a trajetória ascendente e superariam o ano anterior em pouco mais de R$ 20 milhões. Mas com perdas líquidas de R$ 50 milhões, se considerarmos o boom do televisionamento. Assim, é real a chance do Flamengo ter seu faturamento ultrapassado pelo Corinthians, principalmente depois do alvinegro faturar R$ 71,6 milhões apenas com a venda de jogadores. Isto sem contar os mais de R$ 70 milhões projetados pelos paulistas com bilheterias, já que as mesmas seguem direto para o fundo de investimentos responsável pelo pagamento da Arena.
É lógico que ainda estamos em fevereiro e tudo pode mudar. Mas num ano sem Maracanã, toda salvação aparece indissociável dos bons resultados, que alavancariam premiações, venda de jogadores e mandos de campo, número de associados e o preço das propriedades. Deste modo, o Flamengo dos muitos investimentos – Muricy, Guererro, argentinos e colombianos – parece não ter mais direito de errar dentro das quatro linhas. Sob pena de chafurdar diante do atoleiro maestralmente arquitetado nas cercanias do Planalto Central.
Um grande abraço e saudações!
Fonte: Teoria dos Jogos




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