“Os efeitos colaterais da privatização”

A turma mais jovem pode até gostar de ir ao Maracanã. Pode até achar um bom programa. Mas para mim, e para muita gente da geração que nasceu dos anos 60 para trás no Rio de Janeiro, o Maracanã é muito mais do que isso, era a nossa segunda casa – e já tinha escrito isso aqui, há um bom tempo, quando ainda havia futebol no estádio. Pessoalmente, enquanto torcedor e carioca, tive sempre ressalvas à privatização do estádio, entre outras coisas por temer que ocorresse o que ocorre agora – há de tudo no estádio, bailes, peladas, festas, excursões, shows de rock, menos futebol. É um dos efeitos colaterais perversos da privatização – que faz companhia ao menor espaço para o público, à exclusão das camadas polulares no outrora mais democrático templo da cidade, etc…


Evidente que administrar um estádio não pode ser prioridade antes de se ter hospitais modernos que salvem vidas e não facilitem mortes, escolas que formem cidadãos de alto nível intelectual e não só contabilizem números de não-analfabetos. Mas um Estado decente, em que todos contribuam e ninguém roube, deve ter recursos também para cuidar da cultura – lembram do pão e do necessário circo? E talvez não haja nada na cultura brasileira mais genuíno e relevante do que o futebol.

Claro também que os Jogos Olímpicos foram uma benção para a cidade, e que têm prioridade para o uso do ex-Maior do Mundo. Mas não há explicação que me justifique o fato de não haver jogo de futebol no Maraca antes de abril. Não há mesmo, porque nem Estado, nem consórcio e, pior e mais estranho, nem Flamengo, Fluminense e Botafogo, que têm contratos para uso do estádio, explicam nada, comentam nada, reclamam nada. Esse o silêncio mais intrigante dos últimos tempo para mim…
Com o devido respeito a qualquer outro palco nacional, Fla-Flu é para ser jogado no Maracanã. Jogar esse e os outros clássicos do Rio fora do Rio e acelerar o processo de destruição da paixão por futebol na cidade. Já não se conquista muito fora das fronteiras cariocas, se nem o Estadual puder ser visto de perto pelos meninos e meninas do Rio, é o fim. Aí tome de matérias e VTs mostrando que as crianças daqui só usam camisas do Barcelona…
O consórcio tem a muleta da mudança no acordo com o Estado, impedindo-o de usar a área do Célio de Barros e do Júlio De Lamare, o que lhe encolheu os lucros. O Estados tem a vergonhosa muleta da crise financeira – na verdade, uma incomptência siderúrgica, pra ficarmos só nisso, dos últimos governos, em especial de Sérgio Cabral Filho – para não querer o Maracanã. Não convencem a um cego. Mas não adianta reclamar. O Maracanã agora tem donos. E não são mais os cidadãos do Rio.
Mas pior do que tudo é o silêncio dos clubes… Essa é a pauta da hora para nós da mídia.
Fonte: Blog Entre as Canetas / GE

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