Em novembro, quando o processo eleitoral fervia no Flamengo, a candidatura de situação, encabeçada pelo presidente Eduardo Bandeira de Melo, apresentou seu orçamento para 2016: 18% de crescimento da receita bruta e arrecadação na casa dos R$ 425 milhões. Mas a realidade tem sido bem diferente. As metas ficaram mais distantes com a chegada do novo ano e a saída de dois patrocinadores do uniforme do futebol, Viton 44/Guaraviton (pagava R$ 20 milhões/ano) e Jeep (R$ 4,5 milhões/ano).
Para contratar reforços, o departamento teria R$ 18 milhões a mais do que os R$ 12 milhões investidos em 2015. No entanto, o clube ainda corre para alcançar a meta projetada. “Hoje estamos descobertos em R$ 20 milhões no orçamento do ano”, contabiliza o vice-presidente de marketing, José Sabino. “O mercado está difícil para todos. Veja que as escolas de samba do Rio de Janeiro desfilaram no carnaval só com dinheiro da Liga e patrocínios estatais”, cita.
O Flamengo chegou a manter a Jeep na camisa no começo da temporada, tanto na Copa São Paulo de Juniores como nas apresentações de jogadores. Mas as negociações para estender o acordo estagnaram e o logo da fabricante de carros desapareceu após ocupar, inclusive, espaço mais nobre — saiu da área inferior ao número para a superior, onde em 2015 se lia Guaraviton.
Até aqui só renovou a Caixa Econômica Federal, pelos mesmos R$ 25 milhões anuais do anterior. A TIM, que expõe seu logo dentro dos números das camisas, discute a prorrogação do compromisso que se encerra no próximo mês. “Deve ser renovado”, diz o dirigente, acrescentando que a parceria com a empresa de telefonia inclui incentivos a modalidades olímpicas. Também no fim está o acordo com a operadora de televisão por assinatura Sky, que é a patrocinadora do time de basquete masculino campeão brasileiro e mundial. “Começamos a conversar”, conta.
O banco estatal ficou praticamente como patrocinador único com a saída do fabricante carioca de bebidas e da montadora americana de automóveis. A situação, obviamente, é desfavorável, e coloca em xeque as promessas de 2015, mas reproduz o sonho (hoje impossível) dos cartolas rubro-negros: ter apenas uma marca na camisa, como os grandes clubes europeus. “É um objetivo para 2017 ou 2018″, diz o vice de marketing que, contudo, admite ser praticamente inviável tal situação no cenário atual.
Com base nos R$ 55 milhões de faturamento com propaganda no uniforme em 2015, Sabino calcula que o espaço mais nobre absoluto no fardamento rubro-negro custaria em torno de R$ 50 milhões por ano. “É possível contar nos dedos de uma das mãos as empresas com orçamento para tanto”, destaca. Hoje a Caixa tem tal privilégio pagando metade dessa cifra pela frente da camisa, inferior aos R$ 30 milhões/ano que destina ao Corinthians, mas pelo peito e também costas.
Num mercado mais profissional e respeitado, ter sua marca como única a ser exibida numa camisa de grande clube é ótimo negócio. Da exposição, institucional, às ações comerciais e de marketing que podem ser feitas fora das quatro linhas. Além de eliminar poluição visual que caracteriza uniformes de times brasileiros, reduzido o destaque dos símbolos e nomes expostos.
Acontece com os europeus. Para exibir, com exclusividade, o logo da Chevrolet no “manto” do Manchester United, a General Motors paga US$ 79,9 milhões (R$ 321,3 milhões) por ano. É quase seis vezes o que a Caixa paga a Flamengo e Corinthians. Já o Chelsea recebe da Yokohama Rubber US$ 61 milhões (R$ 245,3 milhões) anuais. Dá quatro vezes e meia quanto o banco pagará à dupla mais popular do Brasil em 2016.
Para o dirigente rubro-negro, os clubes sofrem para conseguir patrocínio por algumas razões, a partir da “falta de credibilidade” do esporte mais popular do país. “Ainda gera muita desconfiança. Há empresas que jamais investem no futebol, existem as que temem desagradar outras torcidas e colocam dinheiro na CBF, uma tolice, pois a rejeição é irrisória como as pesquisas comprovam. E também há as que topam patrocinar, mas esbarram no orçamento, no Conselho, na presidência”, enumera.
Numa estimativa otimista, no começo do Campeonato Brasileiro Sabino espera ter duas novas marcas ocupando os espaços deixados pelas que saíram. Fato é que apesar do discurso otimista do período eleitoral, a realidade tem sido bem mais complicada para a diretoria do Flamengo neste quesito. Enquanto isso o clube “realiza” o sonho do patrocinador único, mas da pior forma possível, contra a vontade e por metade do dinheiro que espera, um dia, receber por isso.
Fonte: Mauro Cezar Pereira

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